Um dia em que fiquei invisivel

Os raios de sol entravam pela janela do quarto, de um impulso me pus de pé, “estou atrasada” pensei, rapidamente olhei no relógio e o mesmo ainda marcava seis da manhã, nem quis voltar para cama decidi me arrumar, minha segunda começara. O dia estava quente, abafado, sinal de que não seria bom, na sala todos andavam de um lado para o outro, dei bom e ninguém respondeu, continuaram em seus afazeres, fingindo que eu não estava ali, pensei que talvez fosse pela correria da segunda-feira então não dei muita importância, me arrumei e sai para trabalhar.

Na rua o caminhão pipa da prefeitura molhava os jardins, a água escorria e formava poças como se estivesse chovido, antes de chegar na esquina de casa, um homem numa F250 preta vinha numa velocidade tão alta que bateu numa daquelas poças que me molhou todinha, “será que ele não tinha me visto?” pensei, lá foi eu voltar em casa para trocar de roupa, agora limpa e seca segui para o meu trabalho, não ficava muito longe dali, apenas algumas quadras abaixo.

No escritório estava uma correria, tipico de segunda feira, meus bom dias, todos ignorados, sentei a minha mesa e comecei o meu trabalho, vi a menina do fiscal contar sobre o fim de semana para a do financeiro, vi o subgerente reclamar de erro nos lançamentos, de produção baixa, vi a moça do café trocar olhares com o funcionário novo e recém casado do contábil, eu via tudo ali na minha mesa, sentada, fazendo o meu trabalho, mas quanto a eles me verem, parecia que eu não existia, era como se eu nem estivesse ali, “será que me mandariam embora” pensei, mas porque fariam isso, até onde eu sabia a empresa não estava tão ruim assim para corte de funcionários.

O dia seguiu assim, eu no meu canto e todos agindo como se eu não existisse, então a hora de ir para casa chegou, arrumei minhas coisas e sai, o rapaz da copiadora esbarroou em mim que quando me dei conta estava no chão, ele continuou seguindo como se nada tivesse acontecido, nem ao menos me pediu desculpas, “o que estava acontecendo com todo mundo”, levantei e segui para o elevador onde havia duas moças, pareciam funcionarias novas, as duas conversavam sobre uma outra pessoa, “ele a matou?” perguntou uma delas, “não sei dizer, ao que parece, eles não estavam, tiveram uma briga e acabou nessa tragédia, a família esta muito mal, ninguém aqui no escritório acredita ainda, dizem que ela era uma boa funcionaria, dedicada e bem legal”, alguém do escritório havia morrido, como eu não saberá de nada, queria saber quem era, mas não queria perguntar, então uma delas perguntou por mim, “como era mesmo o nome dela, Ana não é?”, “não era Mariana, Mariana Fontes”, foi como se um buraco tivesse se aberto e me engolido, como assim eu estava morta? Isso só podia ser alguma brincadeira, não tinha logica isso, sai rapidamente do elevador e segui para casa, estava furiosa, amanhã conversaria com meu chefe, sobre essa brincadeira de mal gosto.

A casa estava vazia quando cheguei, o silencio predominava, estranho, a essa hora, todos já deveriam estar em casa, procurei meu celular para tentar ligar para alguém, mas não achei, também não tinha porque me preocupar, logo eles estariam em casa, tomei um banho e resolvi descansar um pouco, o dia tinha sido cansativo. Quando despertei a escuridão já havia tomado conta, a casa permanecia silenciosa, ninguém havia chegado ainda, o relógio marcava oito da noite, “será que havia acontecido algo” pensei, peguei o telefone e disquei o numero da minha mãe, chamou, chamou e ninguém atendeu, me virei e na geladeira havia algo colado, uma especie de bilhete que dizia:

                                                       "hoje vou dormir na casa do Pedro, amo vocês, beijos Mari"

mas o que me chocou foi o que havia ao lado, um recorte de jornal com uma noticia triste, uma noticia de morte, um jovem havia matado a namorada por ciumes e depois se matado, o rapaz era o Pedro e a jovem era eu, isso explica tudo, eu não estava invisível, estava morta.

295 - Um dia em que fiquei invisível

Luciana Souza

Olhos confusos
A garota quieta estava encarando um ponto fixo inexistente por muito mais tempo do que o normal. Sua mente parecia vagar pelo mundo afora, enquanto seu corpo estava sentado naquele banco só, enquanto seus colegas conversavam...

Olhos confusos

A garota quieta estava encarando um ponto fixo inexistente por muito mais tempo do que o normal. Sua mente parecia vagar pelo mundo afora, enquanto seu corpo estava sentado naquele banco só, enquanto seus colegas conversavam freneticamente. Assim como sua mente, seus olhos castanhos escuros, quase pretos, não transpareciam muita coisa, a não ser que tudo estava monótono.
O rosto fino, as bochechas quase inexistentes. De vez em quando seus lábios avermelhados e cheios se contraíam e soltava um leve suspiro. Jogou para trás o cabelo cheio e castanho-escuro com suas ondas irregulares, pois fazia uns 30° C naquela estranha noite de inverno num domingo. O tempo por ali era bem estranho - ela sempre notava.
Com os olhos semicerrados, que no escuro pareciam um completo breu, direcionou um breve olhar para a pessoa que a observava e esta disfarçou. Nada notou. Continuou no silêncio, até que se levantou. Alguém a chamava. Era apenas seu pai. Já, já iria embora. Um sorriso triste, um furinho na bochecha direita. A estatura um pouco abaixo da média, completamente normal. Um corpo não muito atrativo, nada de relevante, na realidade. Mas apesar de tão comum, apesar de tão não-notável, continuou a observar até que sumiu de vista.
E então ficou ali também, olhando o nada, o observador. Ela estava ali, apenas fazendo um teste. Pensando se alguém se importava. Parece que não. Seus olhos confusos o encararam por um segundo em sua mente.

( Beatriz Menezes )

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Se algum dia a casa pegar fogo,
não fuja escondido
é o meu amor te chamando aos gritos
queimando as paredes que suportaram os ritos
e a cadeira na qual segurou seu cansaço aos sábados
Eu vou te sucumbir ao meu incêndio
para apenas fumar sua neblina e desmaiar de adrenalina
Das cinzas eu te reinventarei em prol de nosso descanso eterno
no fio de uma paixão subdesenvolvida

Se a casa pegar fogo sem dó,
eu juro
volto só para buscar as cartas escondidas no sótão
pois elas são as únicas lembranças físicas desse amor queimado, ao pó tão só

( Gyzelle Góes )

o dia que eu me deixei

Um dia acordei e não era mais artista. Não era.
Eu mexia meus dedos contra a luz e não era arte que saía deles. Respirei fundo e nenhuma sensibilidade veio. Peguei o lápis e ele pareceu áspero na minha mão, como se não mais me pertencesse. Dos meus poros não saíam mais poesia, só suor (frio). Meus pensamentos não eram mais coloridos.
Acho que a arte deixou meu corpo.

( Juliana Janeiro)

Sobre flores e corações partidos

As flores do meu jardim começaram a morrer. Ainda não descobri o porquê, pois continuo a regá-las e cuidá-las do mesmo jeito de sempre, apesar do sol recentemente ter andado meio escondido. Tentei muda-las de lugar, mas aos poucos vão murchando uma por uma e estou começando a não ter ideia do que fazer.

Resolvi, enfim, sentar-me ao lado delas e conversar.

“Escutem, moças.” Comecei falando para as pequenas flores que começavam a parecer um pouco tristonhas. “Não posso deixar que continuem com isso. Gastei muito do meu tempo e suor para cuidar das senhoritas então estou pedindo para que vivam. Eu sei que talvez possa ser pedir demais, mas é que fiquei muito apegada a vocês e então seria muito bom se continuassem aqui por mais um tempo.”

Elas não responderam. Balançaram um pouco com a brisa que passara por nós mas continuaram do mesmo jeito, meio tristonhas, meio abatidas. Torci o nariz, como eu poderia explicar como coisinhas tão pequenas e frágeis viraram tão importantes para mim. Não só pelo fato de embelezarem o jardim, mas porque… ora bolas, não sei o porquê.

“Juro que cuidarei de vocês com mais carinho, darei fertilizantes melhores e darei água nas melhores horas do dia. Até colocarei um bebedouro para os beija-flores visitarem-nas mais. Então desistam dessa ideia de murcharem, por favor.” E fiz um carinho em uma folha do caule, só para deixar a oferta mais atraente, mas elas insistiam em me deixar falando sozinha.

Resolvi voltar para dentro de casa então e me encontrei pensativa no assunto. Seriam cômicos, senão fossem trágicos, os meus apelos para as florzinhas continuarem vivas. No final das contas associei isso às pessoas, aos seres humanos. Quantas pessoas já sofreram por amor em situações parecidas. Você cria, o cultiva com todo carinho, espera que fique mais forte e mais bonito e as vezes chega uma hora de que, independentemente de seus esforços e suplicas, tudo murcha, morre e volta ao nada. Já li sobre isso diversas vezes em poesia e perdi as contas de quantas vezes ouvi sobre em músicas. O comum caso da mocinha e do mocinho que se apaixonam, o amor de um acaba e o outro de machuca. Não importa o que a mocinha fizesse, o amor do mocinho jamais voltaria a ser o mesmo e no final a mocinha ficaria hesitante de amar e seus esforços não serem suficientes novamente.

De repente, minhas flores quebraram o meu coração.

(Letícia Siller )

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A pessoa mais pobre que eu já vi tinha tudo que o dinheiro poderia comprar. Tinha tudo que todos queriam comprar mas não podiam. Tinha várias casas de férias por todos os cantos do mundo. A respeito de carros, tinha os mais caros. Tinha até jatinhos particulares. Porém, não possuía as maiores riquezas. Aquelas que nenhum dinheiro poderia comprar. Vivia junto à solidão em meio de várias pessoas, cujas só estavam perto apenas pelo dinheiro, pelo interesse. Não conhecia o amor. As pessoas que ele se relacionava só queriam dinheiro. Não sabia o que era uma amizade verdadeira, pois ele mesmo não sabia como ser amigo. Ele só pensava em si mesmo e nos prazeres que o dinheiro poderia lhe dar. Esquecia-se de criar laços com as pessoas. Laços de amizade. Laços verdadeiros que trazem alegrias que nenhum dinheiro pode comprar. Não tinha fé em nada. Para ele tudo poderia ser resolvido. Porém mal sabia ele que o dinheiro não compra amor nem felicidade. Não compra amizades verdadeiras. Não compra saúde. Não se compra mais anos de vida.

( Alice Tesch )

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A menina que tropeçava

Nunca havia visto alguém tão atrapalhada. A cada 5 passos, 1 ela tropeçava! E o pior: a cada tropeço ela ria de si mesma e procurava pessoas ao redor para rirem junto com ela. Quando voltava (ou tentava) a andar normalmente, fechava a cara. Se não tivesse a visto tropeçando e rindo sozinha eu diria que era muito metida, mas continuei a observ… Opa! Mais um tropeço. Continuei a observá-la. Quase que a cada segundo ela mexia no cabelo. Ele podia estar lindo, super arrumado, mas ela mexia. Jogava para o lado, prendia, soltava, jogava para o outro lado…

Não dá pra considerá-la uma pessoa arrumada, mas de alguma forma chamou minha atenção. Estava com um tênis sujo, uma calça preta e um moletom cinza, comprido o suficiente para cobrir quase metade de sua coxa… Por que ela chamou minha atenção mesmo? Ah sim, eu a vi tropeçar e jogar aqueles fios dourados de um lado para o outro.

Carregava uma bolsa que parecia estar muito pesada, ela chegava a ficar até torta para o lado que a carregava. O que será que tem nessa bolsa? Parecia algo importante, mas ela estava incomodada. A alça ficava caindo de seu ombro, e quando ia colocá-la novamente prendia seu amado cabelo na alça. E lá vai ela arrumar os fios loiros e compridos, colocar novamente a bolsa no ombro e, claro, tropeçar. Como que pode? Parece que vive no mundo da lua, não olha nem o chão que caminha.

Depois de mais alguns tropeços ela senta em um banco de madeira tranquilo no centro, pega seu celular, usa-o como espelho para arrumar o maldito cabelo que ela se importa tanto, e só então relaxa. Observa com atenção algumas pessoas, outras nem tanto. Não é tão observadora quanto parece ser. Até agora não notou o quanto estou notando-a.

Pessoas passam e lhe oferecem coisas, ela, com muita simpatia, agradece e diz que não está interessada. Até que ela avista um cachorro. Um vira lata, provavelmente de algum morador de rua. Ela chama… Nada. Até que percebe que ele não pode escutá-la, então aguarda o contato visual para que possa chamá-lo. Ele vai, todo carente. E ela faz carinho, brinca e faz um novo amigo. Depois que ele se vai, ela percebe sua mão preta, de tão sujo que estava o coitado do cachorro, e novamente ela ri de si mesma, sem se importar com o que as pessoas ao redor vão pensar.

Ela levanta e se vai, sei lá pra onde. Nem ela parece saber, seu passo é tão lento agora que ao mesmo tempo que parece observar tudo ao redor, parece que está tentando se concentrar o suficiente para não tropeçar tanto! Infelizmente não pude observá-la mais por muito tempo, mas o tempo que observei me rendeu alguns sorrisos e risadas. Que figura! Espero encontrá-la mais algumas vezes para me distrair um pouco.

( Angélica Klisievicz Lubas )
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Querido Diogo do passado. Sou eu, seu eu do futuro.
Te escrevo essa carta para adiantar a você uma sabedoria que você só foi aprender depois dos seus quase 25 anos de vida:
Não tenha medo da liberdade.
E não digo apenas da sua liberdade, mas da...

Querido Diogo do passado. Sou eu, seu eu do futuro.

Te escrevo essa carta para adiantar a você uma sabedoria que você só foi aprender depois dos seus quase 25 anos de vida:

Não tenha medo da liberdade.

E não digo apenas da sua liberdade, mas da liberdade das outras pessoas também. Eu sei que ás vezes é difícil a gente entender que o mundo, e muito menos as pessoas, são nossos. Mas você vai aprender com o tempo. Quanto antes, melhor.

Veja bem, amar é poder ir, mas ficar.

Você nunca poderá obrigar ninguém a ficar com você, amar você ou querer seu bem. Tudo o que você pode fazer é estar aberto a essas oportunidades quando elas surgirem. O perigo é você achar que tudo isso pode ser pra sempre. Não é. Nunca é.

Desculpe eu mesmo, seu eu do futuro, ser quem está lhe dando essa notícias.

Quando você crescer, muitos dos seus amigos já terão saído da sua vida. A boa notícia é que outros entrarão, mas também não ficarão para sempre. Todas as pessoas que entrarem na sua vida, sairão em algum momento de alguma maneira. Inclusive você vai entrar e sair na vida de muita gente.

Pois saiba que é preciso amar muito alguém para saber deixar ela ir, se ela quiser ir.

Talvez seja muito complexo eu te explicar isso em uma carta com você sendo tão novo. Mas vou tentar fazê-lo de uma maneira mais simples:

Lembra aquele dia em que você estava na fazenda do vovô e um passarinho pousou no seu dedo? Lembra como foi mágica a sensação? Mas você sabia que a qualquer momento aquele passarinho ia voar dali e seguir para onde ele quisesse ir, não é?

Então é mais ou menos isso. Amar é como ter um pássaro pousado no dedo. É uma sensação gostosa que vai durar até que o pássaro decida voar. O que você pode fazer é aproveitar cada instante entre esse intervalo de tempo, para quando ele for embora, você não fique triste porque ele foi, mas feliz por ter tido aquela sensação boa enquanto ele estava lá.

Essa é a dica que eu te dou: aproveite as pessoas que entrarem na sua vida o máximo possível, pois amanhã elas podem não estar.

Ps.: Ah, e aproveite enquanto ainda pode andar a cavalo na fazenda. O vovô também não vai estar lá para sempre.

( Diogo Batalha )

Estou morrendo.
A cada segundo sugado pelo tique-taque infinito estou mais perto.
Constante e fiel como a terra se que insiste em se acumular na soleira das minhas botas.
Sozinho dou outro passo, caminhando vendado.Tateando e tropeçando e capengando em direção ao abismo longínquo, porém intacto.
Então sinto o susto que vem quando eu alcanço nada fora o nada abaixo dos pés.
Uma lei universal sentenciando um castigo pessoal.
Mas os pavores não se prolongam,
Pois logo penas se alongam.
A venda não resiste ao vento,
E se solta.
E se vai.
É aí que abro meus olhos,
E vejo que me brotaram asas.

( Ruan Carlos)